Coisas boas da nossa terra

Artesanato Típico do Concelho de Marvão

Entre as espécies arbóreas que cobrem os solos do concelho de Marvão, o castanheiro, assume-se como um elemento de extrema importância na economia local, em especial na vertente sul onde conta com importantes manchas de soutos e castinçais, geradores de emprego e riqueza.

O castanheiro, é um valor que faz parte do património cultural dos marvanenses, possuindo um grande manancial de variantes ao nível do artesanato, onde se destacam os bordados tradicionais com casca de castanha, as escadas em castanho e a cestaria em madeiro de castanheiro.

A cestaria de castanho é um conjunto de entrançados e entrelaçados, cuja origem está ligada à vida doméstica rural, como forma de armazenamento e transporte dos frutos e resguardo das utilidades da casa, compreendendo a técnica de fabricação de cestos e canastras.

(…)“A serra de São Mamede é rica em castanheiro bravo, “castanho” ou “castinceira”. Os ramos destas árvores são cortadas em época própria – meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro – pois noutra altura estão a rebentar: é o chamado “cio”.

A madeira é cortada e sofre duas espécies de tratamento: a madeira que vai ser utilizada a curto prazo é metida em presas e passada depois pelo lume, “encozida” em chaminés próprias e ao ar livre: a madeira que se quer guardar é “embacelada”, isto é, enterrada em pequenas covas, onde fica armazenada até Setembro ou Outubro. É depois retirada da terra e sofre o mesmo tratamento da madeira anterior.

A madeira depois de encozida é aberta e descascada. A madeira mais fina e verde não costuma ser encozida nem descascada – é a “cravada”. Esta operação consiste em abrir a vara ao meio, com a ajuda de uma faca própria e com o pé descalço. A esta madeira dá-se o nome de “flor”. A madeira depois de descascada é levada para casa onde é cravada, sofrendo cortes sucessivos, até ficar da espessura necessária. É depois aparelhada no “cavalo” até ficar em condições de ser trabalhada (tecida). O cavalo é um aparelho que consiste apenas num banco de madeira.

A fase seguinte é a da separação das tiras, conforme a sua forma – função. As mais largas são as “latas”; as mais estreitas e compridas são os “veios”. Só depois de todas estas operações se vai iniciar o cesto ou canastro, que são começados pelo fundo. “(…) Artes e Tradições de Évora e Portalegre, Terra Livre, 1980

Para além do artesanato ligado ao castanheiro pode-se ainda encontrar alguns objectos trabalhados em madeira, cortiça e barro.

GASTRONOMIA TRADICIONAL

Nos estreitos vales, entre o quartzítico morro onde o castelo se ergue e o cavado leito do Sever; souberam as gentes de Marvão, com arte e engenho, tirar o seu sustento. As terras leves e bem drenadas, encaixadas nas formações graníticas, que se expandem para norte, contrastam com os solos escuros que do Porto da Espada se prolongam para lá da Escusa. Nesta diversidade de paisagens soube o homem domesticar as terras e os animais e aqui construir espaços de vivência.

Na serra apascentou pequenos rebanhos de cabras e ovelhas, sob as largas copas de sobreiras e raras azinheiras aí soltou farroupos e marrãs.

O pão, nem sempre branco de trigo, semeado nos encaixados vales, moía-se nos engenhos que as águas do rio faziam rodar. Com o coelho, com a lebre, com a perdiz e, esporadicamente, com o javali, o caçador, por entre giestas e xaras, completava a dieta.

Do Sever, quando as águas começavam a acalmar, os tresmalhos, as tarrafas, às vezes com uma mãozinha de embude, traziam cestas de barbos e bogas à mesa das gentes de Marvão.

A castanha, crua, assada, pilada ou cozida, constituía-se como fonte importante de nutrientes.

A oliveira, galega ou cordovil, para além do dourado azeite, enchia as tarefas de retalhadas e salgadas azeitonas com que se enganava a fome em tempos mais difíceis.

Mas foram, e ainda hoje são, as hortas que mais sustentam estas gentes. Os estreitos mas férteis vales, a abundância da água e a arte de bem amanhar os campos complementam, com vegetais, a mesa destas gentes. Da “desprega” dos campos muram-se as hortas, que de animais e ventos protegem as plantações e modelam a paisagem que de Marvão se avista num emaranhado de cinzentas paredes. São muros milenares erguidos principalmente desde a chegada dos romanos e da consequente massificação da agricultura de arado. Foi também com eles que uma maior selecção de espécies vegetais e animais reordenou e voltou a antropizar estas paisagens (…)

Jorge Oliveira in “Para a história da alimentação no Concelho de Marvão”, prefácio da obra Marvão À mesa com a tradição (Adelaide Matins, Emília Mena e Teresa Simão, Edições Colibri, 2008)

Alguns pratos típicos:

Tomatada de Galinha
Sopa de batata com arroz
Sopa de sarapatel
Sopa de castanha
Alhada de Cação
Migas de pão ou de batata com carne de porco frita
Ratatau (cabrito guisado com batatas)
Coelho de cachafrito
Ensopado de cabrito
Arroz doce
Fedelhos
Boleimas de Maça

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